Já tem um bom tempo que eu acompanho as tirinhas da Cibele Santos e eu acho que não preciso ir muito longe pra explicar por quê gosto tanto delas: são coloridas e fidedignas, falam das loucuras e disparidades femininas, das certezas e das incongruências que vivemos no convívio com quem amamos e com nós mesmas.
Engraçado como uma tirinha, com seus três bloquinhos simples de desenho, pode tentar sintetizar o complexo mundo das mulheres. Além do mais, independente da idade, toda mulher carrega um lado mulher de 30 consigo mesma: neurótica, apaixonada, trabalhadadora, verdadeira, desejada, nervosa, sonhadora, etc.
Essa tirinha acima, a mais recente dela, faz graça também com as nossas velhas expectativas de ano novo (renovadas em todos os reveillons) e me lembrou a crônica "Doidas e Santas", da Martha Medeiros, que está no livro de mesmo nome (muito bom, por sinal, me identifico bastante).
Se eu tentar explicar muito, perde a graça. Leia um trecho da crônica:
"Toda mulher é doida. Impossível não ser. A gente nasce com um dispositivo interno que nos informa desde cedo que, sem o amor, a vida não vale a pena ser vivida, e dá-lhe usar nosso poder de sedução para encontrar “the big one”, aquele que será inteligente, másculo, se importará com nossos sentimentos e não nos deixará na mão jamais. Uma tarefa que dá pra ocupar uma vida, não é mesmo?
Mas além disso temos que ser independentes, bonitas, ter filhos e fingir, às vezes, que somos santas, ajuizadas, responsáveis, e que nunca, mas nunca, pensaremos em jogar tudo pro alto e embarcar num navio pirata comandado pelo Johnny Depp, ou então virar uma cafetina, sei lá, diga ai uma fantasia secreta, sua imaginação deve ser melhor que a minha.
Eu só conheço mulher louca. Pense em qualquer uma que você conhece e diga se ela não tem ao menos três destas qualificações: exagerada, dramática, verborrágica, maníaca, fantasiosa, apaixonada, delirante. Pois então. Também é louca. E fascinante.
Todas as mulheres estão dispostas a abrir a janela, não importa a idade que tenham. Nossa insanidade tem nome: chama-se Vontade de Viver até a Última Gota. Só as cansadas é que se recusam a levantar da cadeira pra ver quem está chamando lá fora. E santa, fica combinado, não existe. Uma mulher que só reze, que tenha desistido dos prazeres da inquietude, que não deseje mais nada? Você vai concordar comigo: só sendo louca de pedra.
[Doidas e Santas , de Martha Medeiros]"
por Mônica Pinheiro
de ANO NOVO
domingo, 9 de janeiro de 2011
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2 Comentários:
muito boa! :)
"...Pense em qualquer uma que você conhece e diga se ela não tem ao menos três destas qualificações: exagerada, dramática, verborrágica, maníaca, fantasiosa, apaixonada, delirante. Pois então. Também é louca. E fascinante..." Ahahahah...nem te conto em que eu pensei.
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