quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Corações filtrados

Nos nossos grupos sociais, de amigos ou familiares, a gente ouve (e aprende) todos os dias  alguma hipótese ou teoria curiosa sobre relacionamentos românticos. O ciúme é um dos temas  bem recorrentes nessas conversas e passeia pelos extremos: enquanto para alguns a  liberdade extrema é condição para a união, para outros, o ciúmes é uma verdadeira prova de  amor e de desejo do companheiro (a).

Como na maioria das discussões, não tem como dizer quem está certo ou quem está errado,  até porque todo mundo se agarra fortemente às suas convicções nesse tipo de questão. Eu,  inclusive, com o meu horror ao sentimento de posse envolvendo qualquer tipo de  relacionamento, seja com família, amigos ou amores.


No meio desse embate, percebi que tem um outro "modo de ver as coisas" que pode ser muito  mais fascinante do que essas duas versões do sentimento de posse - que, em excesso, pode  sufocar e que, quando pouco, pode gerar uma sensação de indiferença.


Por que a gente não se propõe, com mais frequência, a pensar o amor romântico como um  exercício de doação? Na verdade, usar essa palavra no contexto do amor parece tão tedioso (não é mesmo?), ou um vestígio de caretice crônica.

Porque doação  lembra também concessão, e abrir mão de algo (entregar o ouro) não é algo que a gente quer. Nós vivemos em defensiva, independente do coração que trazemos conosco: aventureiro,  apaixonado, desgastado, ingênuo, remendado ou revigorado.


E a aversão ao que se chama doação existe porque estamos presos à ideia do amor que está nos encontros, na paixão, no sexo, no romantismo dos filmes, nas declarações de amor, ou em outras formas de vivência romântica, que são menos  estereotipadas - mas que também são práticas - como o amor livre, ou  relacionamento aberto ou o casamento apenas por união, o famoso "juntado". Esse é o lado fantástico e tangível do amor.

Acho que essas são as principais referências para muitas pessoas e eu concordo que não há  nada de errado com elas. Mas, porque a gente não usa a doação como um filtro e transforma  as mais simples verdades de amor em coisas ainda mais bonitas? 



Tem um trecho no livro  "Pessoas como nós", da Margarida Rebelo Pinto, em que o namorado diz para a namorada "Meu  amor o que tu precisas é de uma transfusão emocional". Então é isso.


Doar tempo, doar dedicação, doar respeito, doar carinho, doar atenção e doar vida.  Doar é ser o primeiro a pedir desculpas. Doar é querer deixar a discussão para depois,  quando a cabeça estiver fria, "quando não diremos coisas das quais podemos nos  arrepender". Doar é saber admitir que errou. É confiar sua dor ao outro.

É saber começar  de novo, o mesmo relacionamento, com outros propósitos. Sou eu me doando para você, porque  acho que você vale a pena isso. O problema é que a gente exige tudo isso antes de doar  nada.


Esse filtro imaginário, que a gente não encontra à venda e nem pega emprestado, precisa de  manutenção, de ser colocado em prática. Com ele, ao invés de dizer "eu quero você pra  mim", a gente passa a dizer "eu quero que você seja feliz comigo". E quando dizia "quero  um amor pra minha vida", substitui por "quero que alguém seja feliz ao meu lado". E que eu  possa ser feliz em troca.


Por Mônica Pinheiro 


1 Comentários:

Ligia Borges disse...

Arrasou nas reflexões,Monicats... como sempre!!!
Doação essa é a palavras...se doar ao outro, colocar-se no lugar do outro é o primeiro passo para qualquer relacionamento poder dar certo,assim tb penso eu...bjs

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